O contorno nada previsível do talho do teu corpo no vidro embaçado do banheiro, esse silêncio que nada diz, essa chuva que não cessa lá fora, me fazem pensar no homem acumulativo que sou. Dou a descarga.
Meu bem, já leu Anne Sexton? Pois deveria, ela escreveu coisas que tu não diz nessas tuas voltas pelo amor. Erotismo. O que me deixa reticente, porém, é essa forma suja de me encantar por tuas palavras, a maneira como engatilhas o orgasmo nessas sílabas tônicas. Embora eu saiba que me observas nesses instantes com cautela felina. Prestes... a... devorar.
O gosto das bolhas saindo dos meus lábios em stop-motion, submergindo lentamente desse aquário no qual repousam os nossos sonhos e nossas frustrações. Nesse falso retângulo transparente onde a sereia de papel nos afoga no abraço mortal da poesia. Home. Lar. Casa.
Eu finjo não notar os teus olhos pequenos me querendo. Eu finjo não querer que meus olhos te procurem, nos torturamos mutuamente, mesmo compreendendo que as palavras nos dão a liberdade ilusória de sermos nos mesmos. Sentamos no sofá. A novela começa. Esquecemos de tudo.
