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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Cartas de (des)amor para desconhecidos #02



Baby,

 Eu escrevo isso, que é confissão, porque não sei escrever sem me entregar. Aponto o dedo para mim mesmo: eu que sou o culpado! 

    Chove. 

    E na ausência do teu corpo, desse teu abraço que cruzava para direções distintas, as lembranças me apertam, brincam alucinadas sobre os meus ombros. É só saudade. 

   Me pergunto se tu estás vendo a chuva cair sobre as plantinhas do quintal.

 Não sou um homem triste. Ah, e como os detestamos fora da literatura e do cinemascope, certo? Essas carinhas acinzentadas por aí, pelas ruas... Todo mundo pegou gosto pela tristeza, o que é bem provável, dada a ideia do charme, uma sombra oculta sobre os olhos... ou, quem sabe, por uma justificativa que lhes permita continuar imutável, um corpo inerte no aconchego do eu. Sempre uma justificativa. E lá dá-lhe uma historinha do arco da velha de como a mãe não o amamentou ou de uma namoradinha que o trocou por um cara que dirige um carro esporte... Eu passo, passo tudo isso... Eu creio no samba: é melhor ser alegre que ser triste. Tu também crês nisso?

Amor eu tive e dei. Bastou. Tu sabes, às vezes as historias acabam como o gosto do chiclete. Mas fica na língua, nas papilas gustativas, o sabor por um tempo. Doce. Fica a adrenalina de uma criança que acabou de descer da montanha-russa. Um desejo pulsante de voltar e dar voltas e voltas, ficar de ponta a cabeça, mas a mãe insiste em ir embora... Tudo bem! Mas se sabe, ah, bem no fundo fica um pressentimento de que uma hora, num dia qualquer, chovendo ou não, se pode voltar para mais gritaria, curvas e vento no rosto. As mãos para cima! 

   O parque está ali. Brilhante com sua roda gigante. Solteiro: estou na fila dos bilhetes. Eu acredito no amor, ou no que quer que seja. 

   Espero e vejo a chuva que cai, desejo que tu também a veja.

To your,

G.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Cartas de (des)amor para desconhecidos #01


Cartas de (des)amor para desconhecidos

T.,
   
   O astrólogo anunciou um ano difícil. Disse difícil estendendo o í: Difíiiicil. Ok; mas sempre temos dificuldades com tudo mesmo. Acontece que o Brasil está em Escorpião... Signo complicado, etc... e Marte regendo o ano, e as paixões... E eu, que sou de Leão, signo de fogo... Afinal, o que isto tudo importa para ti? Foi o que me perguntei este ano que passou... Talvez ainda me pergunte no futuro, não agora, não já... 

   Por algum motivo eu me preocupei em tentar solucionar teus “teoremas”, tua energia retrógrada, mas não há muralhas que se sustentem ao passar do tempo e a uma louca tomando sidra de canudinho. Os incensos terminaram na caixinha. O amor sumiu junto ao perfume do sândalo. Já não se sustenta nossa teoria do amor platônico, não entre nós dois. Somos exemplos marcados de vermelho na agenda de algum cupido, ou como preferir...

  Em mim floresceu a plantinha mágica que fez com que eu escapasse das tuas paredes e sentir de novo o brilho do sol fugindo ao meu toque e ao vento que passou a sussurrar coisas sem sentido que soam como: liberdade!

  Rodopiam o dançarino dos ventos, alegre, colorido, tudo o que deixamos de ser nestes últimos meses. T. se o ano é propício para términos. Que bom que acabamos. Honestamente, é hora de recomeçar, porque Marte é o planeta que rege as paixões e em meu peito arde desejo. Desejo de mim mesma.

Adeus, 


Rx.



* Primeira da série Cartas de (des)amor para desconhecidos. O que é escrito aqui não tem a menor relevância e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, afinal, relacionamentos são difíceis pra caramba mesmo. Feliz ano novo!