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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Unilateral




Unilateral. O amor resvala na calha
Percorre o caminho misterioso:
Tubulação, limo, inseto e folha.
Empoeirados desvãos: o amor escorre lustroso.

De repente, a soma incomensurável.
Gotas daquilo que poderia ter sido.
Acumulando-se uma a uma na superfície indomável
da terra seca e nos vãos do piso.

O amor unilateral sacia a sede das raízes
 Brotam agora rijas as flores do teu jardim
Pelo motivo aquoso a quem tu dizes:
— Desculpe, mas tua felicidade é longe de mim!   

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Era teu o meu sorriso





Meus pés afundam na areia. A praia, um tímido sol e as ondas que vêm e voltam. Quis que tudo fosse nosso. É muito egoísmo, por certo, mas quem ama tem esse direito de pensar somente em um outro. É algo maior, compreende? O mundo é uma esfera alucinante que gira e gira e os amantes não saem do lugar, flutuam numa órbita diferente. Então eis-me aqui, desejando ser só eu e tu nessa praia. As nuvens se formam lívidas sobre nós. Te confesso: “eu adoro esse tempo nublado...”. Tu sorris e me diz: “que bom, porque eu também amo!”. O que quis acontece, percebes? É mágico, instante que vibra no meu arrepio. Enquanto todos reclamavam da chuva que começava a cair a procura de um abrigo, um bar, um guarda-sol, eu e tu vamos de encontro ao mar. Era teu o meu sorriso e o teu sorriso era meu.     

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Caminho


Há nos teus olhos, que já foram de outras, a beleza do caminho. Permito-me seguir sem razões aparentes que não sejam a confiança e o desejo. Cor-de-rosa, sou atraído para chama como os insetos noturnos. Corto o sereno com cantigas ancestrais. Invento vaga-lumes e estrelas num céu desesperado. No fim dessa estrada... o que me importa? Não tenho pressa. Sou teu, te pertenço. E enquanto caminho pelo teu corpo, tu és meu. Se por inteiro ou por meia medida, confesso, desconheço razões para me preocupar. Sou feliz, alcançamos o fruto proibido e estamos nos lambuzando nas delícias do desafio. Saboroso, ele escorre suculento pelos nossos corpos, não haveria outro modo de experimenta-lo sem por a conta a risco. Sem viver.


— Vamos, o caminho é longo, e este nosso destino, há muito, aceitamos sem pesar. 

sábado, 28 de novembro de 2015

Máquina de Escrever



   É genuíno. Guardo no bolso da camisa a flor do meu segredo que é colorida como uma película de Almodóvar. Tem os olhos vermelhos e aquela voz alterada. Eu vou pelas ruas te buscando em resquícios soltos e dispersos, como as páginas de velhos diários que me esqueci de datar. Lembro dos versos de Drummond. É disso que preciso. Volto pra casa para te abraçar em mim. Procuro uma vez mais ouvir a tua reclamação, tuas unhas invisíveis que ferem minha pele, teus dentes mordendo minha orelha querendo existir. E vai surgindo, na máquina de escrever, em tinta negra e delicada, a tua primeira pulsação.
    

sábado, 1 de março de 2014

Uma carta para A.


 A. meu bem,

  Nós aceitamos. O tempo passa e só nos resta o verbo aceitar. Tentar entender e buscar alguma explicação é semente para uma infinidade de hipóteses e mais questionamentos e, para evitar mais sofrimento e todo incomodo, aceitamos. É o que nos cabe. Mas sempre fica uma pontinha de dúvida que é como o fio de Ariadne, no entanto, ao invés de mostrar a saída, só faz com que se penetre ainda mais nas profundezas do obscuro labirinto. Não, não pense que sofro, porque eu não sofro. É apenas uma inquietação, uma saudade que bate forte e me deixa necessitando de um abraço seu, tão singular o teu abraço; único. Saudade dos meus braços envolvendo seu corpo esguio, apertando forte, e era como se eles pudessem dar voltas e voltas em seu redor. Saudade das meias coloridas que sempre apareciam quando  tu sentavas e até de quando eu perdia em estatura._ Você dá aqui, ó! Mas eu estou crescendo, não acha...? Saudade da tua sensatez.   

 Ah, minha amiga, a saudade reside no coração dos jovens também. Talvez aquele parque tenha perdido a atmosfera de alguns anos atrás quando invadíamos o teatro para estudar e por os nossos sonhos em voga, onde nos protegíamos das tardes quentes e compartilhávamos dúvidas, nos protegíamos de tudo, por certo a atmosfera não é mais a mesma, mas mantem ainda intacta nossas gargalhadas ecoando em algum lugar, talvez um algum canto imperscrutável entre os azulejos ou na seiva das plantas, tenho quase certeza...