Escreva...
Escreva tuas iniciais em meu peito. Sou tua, pertenço a ti. Tanto que quis te
dizer. Sustentei o olhar no vazio. Nua. Tu procuravas minhas roupas e as jogava
aos meus pés. Então eu soube que tinha que fugir pelos fundos.
Queria
ser aquela que te libertaria da dor, dos trilhos assombrados da rotina de uma
vida conjugal. Interromperia teu destino certo. Dona dos caminhos, eu romperia
o silêncio da tua culpa, da tua infelicidade. “Não vês que sou tua estrada?
Permita-me.” Tentei dizer-te.
Segurando
o choro. Saí sem te olhar. Fingi um orgulho ferido que eu não tinha e nem poderia
me dar o direito de ter, embora o desejo. Qualquer reles sinal, um suspiro,
talvez um murmúrio, qualquer sinal, qualquer unzinho e, Otávia, eu voltaria
para os teus braços. Seríamos flagradas. Culpadas.
Ah,
aquele desejo de posse... Seriam mais castanhos os teus olhos libertos? Fora
idealização, coisa de poeta, de quem escreve versos com sílabas milimetricamente
calculadas, mas não sabe nada da vida? Era um problema ter me apaixonado pela
decadência do teu lar, da tua vida. Veja bem, apaixonar-se pela minha própria
professora de matemática, enquanto, no quadro negro, resolvia-se uma equação
quadrática, que, sem fórmulas, despertou-me, em química diferente, o coração.
Coisa sem nome próprio, desejo, aventura, paixão ou amor? A soma de tudo?
Eis que agora corro. Os botões do meu uniforme encontrando as casas a qual pertencem desordenadamente, permanecem tortos. Meus joelhos ralados de sobressalto e quedas ardem. Mas nada disso realmente importa, além da voz do teu marido. Os lábios dele se encontrariam com os teus? Cenas que furtam-me instantes.
É para longe que fujo, Otávia. Sem vestígios. E na minha memória, enquanto não se apagar a chama, terei para sempre a Vênus tatuada do teu dorso, contornada pela minha língua, onde deixei meu último beijo.
