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terça-feira, 5 de setembro de 2017

Vênus Tatuada


Escreva... Escreva tuas iniciais em meu peito. Sou tua, pertenço a ti. Tanto que quis te dizer. Sustentei o olhar no vazio. Nua. Tu procuravas minhas roupas e as jogava aos meus pés. Então eu soube que tinha que fugir pelos fundos.
Queria ser aquela que te libertaria da dor, dos trilhos assombrados da rotina de uma vida conjugal. Interromperia teu destino certo. Dona dos caminhos, eu romperia o silêncio da tua culpa, da tua infelicidade. “Não vês que sou tua estrada? Permita-me.” Tentei dizer-te.  
Segurando o choro. Saí sem te olhar. Fingi um orgulho ferido que eu não tinha e nem poderia me dar o direito de ter, embora o desejo. Qualquer reles sinal, um suspiro, talvez um murmúrio, qualquer sinal, qualquer unzinho e, Otávia, eu voltaria para os teus braços. Seríamos flagradas. Culpadas.

Ah, aquele desejo de posse... Seriam mais castanhos os teus olhos libertos? Fora idealização, coisa de poeta, de quem escreve versos com sílabas milimetricamente calculadas, mas não sabe nada da vida? Era um problema ter me apaixonado pela decadência do teu lar, da tua vida. Veja bem, apaixonar-se pela minha própria professora de matemática, enquanto, no quadro negro, resolvia-se uma equação quadrática, que, sem fórmulas, despertou-me, em química diferente, o coração. Coisa sem nome próprio, desejo, aventura, paixão ou amor? A soma de tudo? 
Eis que agora corro. Os botões do meu uniforme encontrando as casas a qual pertencem desordenadamente, permanecem tortos. Meus joelhos ralados de sobressalto e quedas ardem. Mas nada disso realmente importa, além da voz do teu marido. Os lábios dele se encontrariam com os teus? Cenas  que furtam-me instantes. 
É para longe que fujo, Otávia. Sem vestígios. E na minha memória, enquanto não se apagar a chama, terei para sempre a Vênus tatuada do teu dorso, contornada pela minha língua, onde deixei meu último beijo.