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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Unilateral




Unilateral. O amor resvala na calha
Percorre o caminho misterioso:
Tubulação, limo, inseto e folha.
Empoeirados desvãos: o amor escorre lustroso.

De repente, a soma incomensurável.
Gotas daquilo que poderia ter sido.
Acumulando-se uma a uma na superfície indomável
da terra seca e nos vãos do piso.

O amor unilateral sacia a sede das raízes
 Brotam agora rijas as flores do teu jardim
Pelo motivo aquoso a quem tu dizes:
— Desculpe, mas tua felicidade é longe de mim!   

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Identidade



Nesta manhã nublada, branca como folha de papel, faço das palavras minha matéria bruta. Espirito. Alma. Coração. É fuga meu corpo sublime. Contorno as nuvens com a ponta do dedo. Crio coisas quaisquer. Moldo no frescor do nada com a doce ilusão de ser Deus. Inventar. Desvendar no primitivo, gasoso, minha semelhança. Tem valor de secreto essas inconfessáveis aparências. Signo de Ar. O cigarro aceso, em fuga espectral  todos os fantasmas natimortos da minha literatura vencida. Fumaça. A gata enrola-se aos meus pés. Datilografo minha identidade imprecisa. Me fascino com a total ignorância de ser só. Uma solidão enevoada, apagando a sanidade num risco branco de giz. Não entender e ser. Eis-me. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Que Mário?



Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.

                                                                  Mário Faustino