terça-feira, 20 de agosto de 2019

Amatória



"Zélia censurava seus gritos com a mão ensanguentada sobre a boca. Tinha dado fim à galinácea ave, entre as chamas bruxuleantes de rubras velas e as oferendas. Magia amatória. O feitiço fora lançado? Certamente. Ela podia sentir isso com sentia o frio tomar-lhe a pele dos braços expostos.
Ela tinha pavor daquelas histórias que ouvira por toda a vida sobre feitiçarias, pactos, acordos sombrios com entidades místicas, pérfidas e malignas. E agora aquilo!?
Como poderia resistir, afinal? Sacrifícios em nome do amor, ela repetia para si mesma em pensamentos, enquanto a faca pingava na terra negra o sangue escuro.   
Estática, ela sentia certo pavor lhe dominando o juízo na medida em que provava o sangue quente e salgado respingado na face que lhe invadia pelos lábios carnudos a boca entreaberta. Ah, se não fosse por Vicente não estaria ali...". 

sexta-feira, 28 de junho de 2019

A mão fantasmagórica


A coruja pia. Sinto informar, mas faço parte das estatísticas. Apesar do meu signo solar, dos meus olhos castanhos claro, da mão macia que acaricia por entre meus dedos em união, a ansiedade me toma. 
Sou vítima, marcado num alvo listrado. A noite se aproxima e a batalha mais uma vez é travada. Os sonhos se vão para dar terreno ao estranho campo de batalha em meus pensamentos. Seriam esses pensamentos meus, afinal?  
E os meus pensamentos vacilam, tremelicam até o coração acelerar assustado, querendo ser dono próprio de seu destino. "Sossega em meu peito!".  
O medo. A mão fantasmagórica que repousa sobre a minha cabeça me aflige e me perco em elucubrações. Arrepio nos braços, desejo que fossem aqueles lábios e não o toque frio. 
E se penso em desistir de tudo, não adianta, a lâmina da fé corta qualquer maldição. E apesar do buraco negro que engole nas horas mais insanas do dia, a minha vontade de viver queima, eu luto. Enfrento demônios, bestas mitológicas e a escuridão como um cavaleiro desengonçado, ainda de mira incerta, mas com a coragem que só os que lutam pela vida possuem.
   

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Aula de Ballet ou Uma literatura Menor


              Imagem in: https://www.deviantart.com/catherinas/art/ballet-288705293

Creio que sonhávamos com os instantes de silêncio, quando recorríamos ao mistério inexplicável das sensações, aqueles instantes em que juntas poderíamos ser. Ser sem pesar. Nós mesmas.
Tudo indica que minha primeira paixão tenha começado no dia em que, fugindo do aguaceiro, entrei correndo no prédio do curso. Gotas d’água vasculhavam meu corpo, encontrando partes quentes, o próprio corpo a se desenvolver. Fios de cabelo insistentes grudavam em minha testa, colavam-se junto aos meus lábios. De repente o chão duro e frio. A queda. Sempre chovia à tarde.
Quanto a mim, que sempre me julguei demasiado precavida, não previ que o céu ficaria lívido, que o guarda-chuva não estaria na bolsa, tão pouco o quanto era incalculável o instante da paixão. O que me desarmou naquele dia se não propriamente o destino? Eu vivia aquela fase em que nada era surpreendente, julgando-me conhecedora de todas as facetas do dado. Quanta pretensão! Convencida e poderosa, mas caída ao chão. Ainda ali, o sabor salgado do sangue na boca. Poderias ter uma rosa no lugar da cabeça, dado o perfume, mas era teu rosto que me sorria. Tu me estendeste a mão: “Cuidado!”.
Tu eras dali em diante existente em meu mundinho. Coração pulsante e todas as construções romanticamente exageradas da língua.  
 As gotas ziguezagueavam sobre a superfície embaçada do vidro. Uma gotinha escorria até encontrar outra gotinha, que, por sua vez, formava pequenas poças em cantos imperscrutáveis da janela. A cópula. Demi plié. O meu coque sempre desalinhado. Pés encostados sobre a barra. Equilíbrio. Fitava-te, ah, teu jeito me fascinava e envergonhava. Meu constrangimento era uma surpresa para mim. Como dai em diante ansiei por ser correspondida... O que me atingiu como um raio, enquanto dançávamos e nossos olhares se esbarravam? Um piscar. Era isso?
E um, dois, três, quatro...
Embora eu detestasse o curso de ballet, tinha plena convicção que ele me propiciava os instantes mais significativos da minha vida juvenil. E não era? Por isso mesmo o tolerava. Meus pés feios, enrolados em gazes e esparadrapos não eram, necessariamente, um motivo para me fazer desistir de ti, mesmo quando exaustos, sangravam nas sapatilhas.
— Lívia! — A professora me censurava quando, distraída, eu errava o passo e a postura. Ah, como a detestava!   
Logo a dor ia embora, a vergonha igualmente, como qualquer escuridão a se extinguir na presença da luz. Engraçado, eu compreendo tal comparação como um desses versos antiquados duma música antiga. Devo admitir que ali, apaixonada, me tornei uma moça deveras ridícula. E adorável, visto os anos que passaram e o olhar zeloso que desenvolvi com a experiência, condescendente e materno, ao meu eu do passado. Fruto de terapia. Admito. Agora perdoo minhas tolices e equívocos, minha inexperiência.    
— Atenção, Amanda! — A ti também as ralhas alcançavam. Até à bailarina indomável de caixinha de joias, quem diria? Ah, se eu pudesse te recolher com minhas mãos em concha, te pôr em uma caixinha delicada. Eu a abriria a meu bel-prazer e te assistiria dançar, sempre e completamente minha.
Para além do delírio, gostoso era sentir teu toque nas barras ao encostarmos levemente o corpo uma ao da outra. As malhas roçando levemente. Desvendando o corpo espelhado. Na primeira posição de perna, Grand plié.    
     Não trocávamos palavras durante as aulas. Bilhetinhos apaixonados. Afagos. Sorrisos. Jamais seriamos pegas ou vítimas de suspeitas das outras meninas. Cumplices, quando, no mutismo do esforço das barras, desejávamos uma à outra nas aulas de ballet. Suponho, no entanto, que Degas jamais nos teria como inspiração. Mas tudo era tão bonito, veja só, um mundo cor-de-rosa à parte do lamaçal do lado de fora, do mundo inteiro, que me parecia um eterno toró no calendário de tardes modorrentas, banais.
Penso, até quando poderíamos suportar aqueles limites? Chegaríamos um dia a nos tornar amantes? Cigarro na boca depois do amor, banho ou lencinhos umedecidos, meu bem? Rosados orifícios. Ponta dos dedos. Língua e... ops, espasmos. O dom de Eva, aquele segredo desvendado anos depois, na faculdade. Dificílimo par alguns, feminino, misterioso e proibitivo num mundo de homens.
Vieste correndo, lembro-me bem daquele dia, me empurravas para o banheiro. “Anda, te apressa, te apressa...”. Cheguei a pensar em morrer. Como? Jesus Cristo! Aqui, assim? Foi então que me disseste: “Vou-me embora da cidade, fica com isto, não te esqueces de mim!”. Ainda imaturos, nossos seios se encontraram; e tua boca, como quem beija pela primeira vez, encostou-se à minha. Fechada e demoradamente. Tal como um carimbo por sobre o papel, no entanto quente, e proibido. Eis o meu presente para a vida. Sem assimilar, não pude direcionar meu raciocínio, eu deveria sentir felicidade ou tristeza?
Meu primeiro beijo. Saíste sem dizer mais nada.
Voltamos para a sala de aula. Alguma coisa havia se rompido. Tu saberias dizer? Invisível. Já não nos olhávamos e nossos corpos não mais se encontravam. Era um adeus. Escorriam os minutos. Sabia também que aquela seria minha última aula. Dancei como se estivesse estreando. O beijo marcado em minha boca. A professora teceu pela primeira e última vez um elogio ao meu esforço. Elogio que ignorei prontamente, pois preferia a indisciplina.  Nosso tempo acabou sinalizado pelo som agudo do relógio.  Fomos dispensadas.
Um raio branco cortou o céu cinzento e depois ocorreu de o trovão o acompanhar, lento e grave. Quando te vi ao longe, traspondo a massa de garotas agitadas em malhas coloridas, descendo as escadas em fuga, atravessando a portaria desvairada e infantil, a chuva tornou a cair. 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Unilateral




Unilateral. O amor resvala na calha
Percorre o caminho misterioso:
Tubulação, limo, inseto e folha.
Empoeirados desvãos: o amor escorre lustroso.

De repente, a soma incomensurável.
Gotas daquilo que poderia ter sido.
Acumulando-se uma a uma na superfície indomável
da terra seca e nos vãos do piso.

O amor unilateral sacia a sede das raízes
 Brotam agora rijas as flores do teu jardim
Pelo motivo aquoso a quem tu dizes:
— Desculpe, mas tua felicidade é longe de mim!   

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Confetes


Confetes. Danço no meu próprio ritmo. Nas ruas ou no quarto. Debaixo da chuva ou das cobertas. Estado de espírito inconstante. Indomável. Antes um chato em casa: controle remoto nas mãos, o livro do Tolkien que nunca tirei da estante, os versos de marchinhas machistas ao longe. Hoje as minas não se calam. Oxalá. Se ensaio meus passos nas ruas: envesgo. Antes um inquieto na rua. O dedo na ponta do nariz, a face iridescente em purpurina multicolorida. Acontece que não sei o que quero. Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é? Sou: Os meus pés sambam estranho, me lançam pra trás, mas meu coração é comissão de frente, mesmo indeciso, me leva aonde quer.   

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Era teu o meu sorriso





Meus pés afundam na areia. A praia, um tímido sol e as ondas que vêm e voltam. Quis que tudo fosse nosso. É muito egoísmo, por certo, mas quem ama tem esse direito de pensar somente em um outro. É algo maior, compreende? O mundo é uma esfera alucinante que gira e gira e os amantes não saem do lugar, flutuam numa órbita diferente. Então eis-me aqui, desejando ser só eu e tu nessa praia. As nuvens se formam lívidas sobre nós. Te confesso: “eu adoro esse tempo nublado...”. Tu sorris e me diz: “que bom, porque eu também amo!”. O que quis acontece, percebes? É mágico, instante que vibra no meu arrepio. Enquanto todos reclamavam da chuva que começava a cair a procura de um abrigo, um bar, um guarda-sol, eu e tu vamos de encontro ao mar. Era teu o meu sorriso e o teu sorriso era meu.     

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Vênus Tatuada


Escreva... Escreva tuas iniciais em meu peito. Sou tua, pertenço a ti. Tanto que quis te dizer. Sustentei o olhar no vazio. Nua. Tu procuravas minhas roupas e as jogava aos meus pés. Então eu soube que tinha que fugir pelos fundos.
Queria ser aquela que te libertaria da dor, dos trilhos assombrados da rotina de uma vida conjugal. Interromperia teu destino certo. Dona dos caminhos, eu romperia o silêncio da tua culpa, da tua infelicidade. “Não vês que sou tua estrada? Permita-me.” Tentei dizer-te.  
Segurando o choro. Saí sem te olhar. Fingi um orgulho ferido que eu não tinha e nem poderia me dar o direito de ter, embora o desejo. Qualquer reles sinal, um suspiro, talvez um murmúrio, qualquer sinal, qualquer unzinho e, Otávia, eu voltaria para os teus braços. Seríamos flagradas. Culpadas.

Ah, aquele desejo de posse... Seriam mais castanhos os teus olhos libertos? Fora idealização, coisa de poeta, de quem escreve versos com sílabas milimetricamente calculadas, mas não sabe nada da vida? Era um problema ter me apaixonado pela decadência do teu lar, da tua vida. Veja bem, apaixonar-se pela minha própria professora de matemática, enquanto, no quadro negro, resolvia-se uma equação quadrática, que, sem fórmulas, despertou-me, em química diferente, o coração. Coisa sem nome próprio, desejo, aventura, paixão ou amor? A soma de tudo? 
Eis que agora corro. Os botões do meu uniforme encontrando as casas a qual pertencem desordenadamente, permanecem tortos. Meus joelhos ralados de sobressalto e quedas ardem. Mas nada disso realmente importa, além da voz do teu marido. Os lábios dele se encontrariam com os teus? Cenas  que furtam-me instantes. 
É para longe que fujo, Otávia. Sem vestígios. E na minha memória, enquanto não se apagar a chama, terei para sempre a Vênus tatuada do teu dorso, contornada pela minha língua, onde deixei meu último beijo.