Imagem in: https://www.deviantart.com/catherinas/art/ballet-288705293
Creio
que sonhávamos com os instantes de silêncio, quando recorríamos ao mistério
inexplicável das sensações, aqueles instantes em que juntas poderíamos ser. Ser
sem pesar. Nós mesmas.
Tudo
indica que minha primeira paixão tenha começado no dia em que, fugindo do
aguaceiro, entrei correndo no prédio do curso. Gotas d’água vasculhavam meu
corpo, encontrando partes quentes, o próprio corpo a se desenvolver. Fios de
cabelo insistentes grudavam em minha testa, colavam-se junto aos meus lábios. De
repente o chão duro e frio. A queda. Sempre chovia à tarde.
Quanto
a mim, que sempre me julguei demasiado precavida, não previ que o céu ficaria
lívido, que o guarda-chuva não estaria na bolsa, tão pouco o quanto era
incalculável o instante da paixão. O que me desarmou naquele dia se não
propriamente o destino? Eu vivia aquela fase em que nada era surpreendente,
julgando-me conhecedora de todas as facetas do dado. Quanta pretensão!
Convencida e poderosa, mas caída ao chão. Ainda ali, o sabor salgado do sangue
na boca. Poderias ter uma rosa no lugar da cabeça, dado o perfume, mas era teu
rosto que me sorria. Tu me estendeste a mão: “Cuidado!”.
Tu
eras dali em diante existente em meu mundinho. Coração pulsante e todas as
construções romanticamente exageradas da língua.
As gotas ziguezagueavam sobre a superfície
embaçada do vidro. Uma gotinha escorria até encontrar outra gotinha, que, por
sua vez, formava pequenas poças em cantos imperscrutáveis da janela. A cópula. Demi plié. O meu coque sempre desalinhado.
Pés encostados sobre a barra. Equilíbrio. Fitava-te, ah, teu jeito me fascinava
e envergonhava. Meu constrangimento era uma surpresa para mim. Como dai em
diante ansiei por ser correspondida... O que me atingiu como um raio, enquanto
dançávamos e nossos olhares se esbarravam? Um piscar. Era isso?
E
um, dois, três, quatro...
Embora
eu detestasse o curso de ballet,
tinha plena convicção que ele me propiciava os instantes mais significativos da
minha vida juvenil. E não era? Por isso mesmo o tolerava. Meus pés feios,
enrolados em gazes e esparadrapos não eram, necessariamente, um motivo para me
fazer desistir de ti, mesmo quando exaustos, sangravam nas sapatilhas.
—
Lívia! — A professora me censurava quando, distraída, eu errava o passo e a postura.
Ah, como a detestava!
Logo
a dor ia embora, a vergonha igualmente, como qualquer escuridão a se extinguir
na presença da luz. Engraçado, eu compreendo tal comparação como um desses
versos antiquados duma música antiga. Devo admitir que ali, apaixonada, me
tornei uma moça deveras ridícula. E adorável, visto os anos que passaram e o
olhar zeloso que desenvolvi com a experiência, condescendente e materno, ao meu
eu do passado. Fruto de terapia. Admito. Agora perdoo minhas tolices e
equívocos, minha inexperiência.
—
Atenção, Amanda! — A ti também as ralhas alcançavam. Até à bailarina indomável
de caixinha de joias, quem diria? Ah, se eu pudesse te recolher com minhas mãos
em concha, te pôr em uma caixinha delicada. Eu a abriria a meu bel-prazer e te
assistiria dançar, sempre e completamente minha.
Para
além do delírio, gostoso era sentir teu toque nas barras ao encostarmos
levemente o corpo uma ao da outra. As malhas roçando levemente. Desvendando o
corpo espelhado. Na primeira posição de perna, Grand plié.
Não trocávamos palavras durante as aulas.
Bilhetinhos apaixonados. Afagos. Sorrisos. Jamais seriamos pegas ou vítimas de
suspeitas das outras meninas. Cumplices, quando, no mutismo do esforço das
barras, desejávamos uma à outra nas aulas de ballet. Suponho, no entanto, que
Degas jamais nos teria como inspiração. Mas tudo era tão bonito, veja só, um
mundo cor-de-rosa à parte do lamaçal do lado de fora, do mundo inteiro, que me
parecia um eterno toró no calendário de tardes modorrentas, banais.
Penso,
até quando poderíamos suportar aqueles limites? Chegaríamos um dia a nos tornar
amantes? Cigarro na boca depois do amor, banho ou lencinhos umedecidos, meu
bem? Rosados orifícios. Ponta dos dedos. Língua e... ops, espasmos. O dom de
Eva, aquele segredo desvendado anos depois, na faculdade. Dificílimo par
alguns, feminino, misterioso e proibitivo num mundo de homens.
Vieste
correndo, lembro-me bem daquele dia, me empurravas para o banheiro. “Anda, te
apressa, te apressa...”. Cheguei a pensar em morrer. Como? Jesus Cristo! Aqui,
assim? Foi então que me disseste: “Vou-me embora da cidade, fica com isto, não
te esqueces de mim!”. Ainda imaturos, nossos seios se encontraram; e tua boca,
como quem beija pela primeira vez, encostou-se à minha. Fechada e
demoradamente. Tal como um carimbo por sobre o papel, no entanto quente, e proibido.
Eis o meu presente para a vida. Sem assimilar, não pude direcionar meu raciocínio,
eu deveria sentir felicidade ou tristeza?
Meu
primeiro beijo. Saíste sem dizer mais nada.
Voltamos
para a sala de aula. Alguma coisa havia se rompido. Tu saberias dizer?
Invisível. Já não nos olhávamos e nossos corpos não mais se encontravam. Era um
adeus. Escorriam os minutos. Sabia também que aquela seria minha última aula.
Dancei como se estivesse estreando. O beijo marcado em minha boca. A professora
teceu pela primeira e última vez um elogio ao meu esforço. Elogio que ignorei
prontamente, pois preferia a indisciplina. Nosso tempo acabou sinalizado pelo som agudo
do relógio. Fomos dispensadas.
Um
raio branco cortou o céu cinzento e depois ocorreu de o trovão o acompanhar,
lento e grave. Quando te vi ao longe, traspondo a massa de garotas agitadas em
malhas coloridas, descendo as escadas em fuga, atravessando a portaria
desvairada e infantil, a chuva tornou a cair.