Mostrando postagens com marcador Pequenas Reflexões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pequenas Reflexões. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de junho de 2015

O homem sem saudade


Blanc. O passado branco como pegadas lunares. Atmosférica sensação de vivência, a névoa de prata levantando a cada passo e se apagando instantaneamente. Não havia constelação guia. Os gestos másculos, quase animalescos, lambendo, mordendo, rasgando o instante que se esvaia do mesmo modo em que surgia, o erro era a ponta, a ponta solta, ligeira como serpente, que seguia o rumo oculto do que fora e do que poderia ter sido. Ele não tinha nome, tão pouco formou algo além de lembranças vazias. Não havia fúria, não havia som, nem amor. O belo e o grotesco não lhe tocavam na superfície do ser. A profundidade era escura e misteriosa como a do mar. Talvez ele esquecesse de que não bastava só estar como os minerais e os elementos e que era preciso, sobretudo, buscar. Talvez ele nem lembrasse. O homem não era aquecido durante o longo inverno por uma chama viva de saudade. O homem não se atormentava nunca. Aquele homem era brilho que se esgotava em seu próprio estado, em seu próprio instante. Tinha perdido a condição humana da angústia e pertencia ao plano das coisas inomináveis. Estava vivo, mas não vivia. Ele não era homem. Ninguém sabia explicar.    

                                                                                                                                  

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mordeu os lábios


Mordeu os lábios. A sensação era diferente. Corrente elétrica que percorreu de um ponto a outro, passou pelo ventre, por acaso, notou no momento exato em que o cruzou. Ele não sentiu também? Não se sabe de que molécula partiu, que neurônio. O músculo cárdico acelerado, coração... Como se mordesse um ser celeste, uma estrela que explodiu a bilhões de anos. Força que reconhece sua, tão íntima e misteriosa, oculta na escuridão pulsante do corpo. Por um lado ela se aliviava, por outro não compreendia. Mas estava exausta de tentar compreender certas coisas, deixava no plano mítico ou místico. Nessas horas se permitia a ignorância. E a sensação... aquela estranha sensação de ter sido. Ter sido instrumento, matéria. Sentou-se sobre a cama, fechou o penhoar lilás com firmeza. Acendeu um incenso, não fumava havia algum tempo, a última vez fora na noite em que soube pelo noticiário da morte de Elizabeth Taylor. Chorara? Apagavam-se os olhos violeta do mundo. Mas e a sua força? Tão viva e recolhida, insipida. Orgasmo. Tinham medo as freirinhas da palavra. As meninas reunidas em rodinhas fumando escondidas e a palavrinha na ponta da língua. Incógnita e ponto G. Sentia-se alheia aquele mundo, aquela sensação muitas vezes deveras enfeitada por bocas ainda virgens. A palavra como o sumo de uma saborosa fruta madura. E como queria saborear a estúpida cor do prazer, branca e longínqua, algodoada e pura. O tom de quando a mulher conseguia acariciar a própria alma.

_Foi bom? _ele perguntou arfante, o cabelo caindo sobre os olhos, a cabeça sendo engolida pelo travesseiro.
  
Fez um meneio de cabeça concordando, e enfim  entendeu plenamente a expressão: “dar com uma mão e tirar com a outra”. Ficou olhando o ventilador de teto girar e girar e ao fundo conseguiu ouvir o rádio do vizinho do andar de baixo ligado baixinho. Eternamente, Yolanda. Submergia lentamente.  

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Heterocromia



    


   As noites estão quentes ou é o coração que emana tanto calor? Penso que cresci e volta e meia me arrependo. É quando me desprendo da lívido ótica do adulto (com a palma da mão tapo um dos olhos) e enxergo as cores iridescentes do universo sob a lente verde-água de criança. Entendo que posso ver muito melhor desta forma... Heterocromia. Acho prudente ter olhos cada qual de uma cor, assim, distintos.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Imaginarium



   

  Os Ipês. Cor-de-rosa. Não há muito tempo para contemplações, logo eu que sou assim, contemplativo. Não? Caem as flores num suspiro de brisa... Chovem flores com os chuviscos. Céu nublado.

  Vi num filme: São tempos difíceis para os sonhadores. Por certo. Às vezes eu sinto uma tristeza imensa quando as crianças me olham assim, como que dizendo que não conseguem expressar sua imaginação. Aperta o coração. Não consigo falar! As fardinhas azuis em circulo. Um friozinho na barriga no momento de se expor... Até com os adultos, meninos.  Ah, eles imaginam... sonham que podem voar sem precisar de asas, guerreiam contra dragões e outras criaturas, fazem shows para plateias imensas, vão para a copa do mundo, nadam com baleias e sereias, mas é tão difícil fazê-los falar. É o medo. Por que os outros podem rir. Rir do que lhes é mais bonito, a imaginação. Zombar de seus sonhos de suas outras faces. Então, na folha branca os desejos se revelam em palitinhos  ou em figuras tortas, mas sempre surge alguém dizendo: Tio, eu não sei desenhar...

sábado, 22 de março de 2014

O tecido do outono


  Qual é a coisa mais linda do mundo? A menininha perguntou para a mãe. Obvio que a minha atenção se voltou para o monólogo da criança listando as coisas que ela classificava como as mais belas do mundo. Afinal, olha a importância de saber quais são essas coisas! Escolheu dentre elas a estrela como a mais linda, por pouco não ganhou a melancia ou o guarda-chuva. É claro que é a estrela! A mãe não ligou, cansada olhava o trânsito confuso. Andamos assim, esgotados com as coisas mais lindas do mundo? Hoje é o segundo dia do outono. Ah, outono! Amor, é a minha estação favorita, sabia? Doa-se a natureza, tão orgânica. O silêncio também faz parte dela desenhando figuras na ar. Encosto minha cabeça no mármore da janela e fico nas minhas saudades. Gosto de me imaginar assim tão filosófico, coisa de filósofo essa de supor; suponho que os sonhos são... etc., também costuro certas fantasias e escrevo um romance. Oh, tão lindo em francês: Automne. Imagina zanzar por Paris no Automne? As folhas cadentes pousando alaranjadas e amareladas na Avenue Gustave Eiffel... C’est magnifique! Sonhar é de graça, certo? As folhas em tons quentes e sua pele dourada. Para não esquecer escrevo cartas, se as lerão um dia, eu não posso afirmar, suponho que não as enviarei ou enviarei tardiamente. Perdeu-se nos correios, que coisa! Em pleno século XXI (pomos sempre como referência o século para dar ênfase na culpa dos outros). Mas voltando às coisas mais lindas do mundo, diferente da garotinha eu não saberia ou mesmo sequer poderia escolher uma assim, na lata. Mas enquanto você, em sua opinião, qual a coisa mais linda do mundo, heim?

terça-feira, 4 de março de 2014

Mamãe, eu quero ser hippie!

    


    Minha mãe sempre quis viver uma vida alternativa, não que não viva, vive, mas digo... ela queria ser hippie, não por conflitos ideológicos ou políticos, mas pela estética e aparente liberdade de ser. Eu a imagino quando moça, assim, magrinha, zitinha, o cabelo negro armado, talvez uma margarida por sobre a orelha direita, descalça, por certo com os pés nus sobre a areia de alguma praia, olhos meio esverdeados perdidos no mar. Ah, como é bela essa minha visão! Eu já tive o mesmo desejo e não faz muito tempo, estava na praça com D.A. quando uma roda de capoeira atraiu-me num só instante, corri para ver, e lá em redor estavam eles, com grandes dreads e pulseiras de lã, colares de sementes e jeans velho, tão bonitinhos, distribuídos entre as rochas verde-musgo e os monumentos históricos, uma escada que agora não dá a lugar algum. Tão desapegados a alguma coisa que nem sei,  tão apegados ao vento no rosto à andança. Com belos gestos, eles cantavam, batiam palmas e observavam a roda, tão cúmplices. Por dentro, uma criança também correu, digo-lhes a absoluta verdade, correu pela praia e disse: _Mamãe, eu também quero ser Hippie!

Longe de qualquer razão, certa sensação de liberdade nos é confortante. Talvez seja isso o que eles sentem... talvez. Ah, eu e meus talvezes...!