sexta-feira, 8 de maio de 2015

Identidade



Nesta manhã nublada, branca como folha de papel, faço das palavras minha matéria bruta. Espirito. Alma. Coração. É fuga meu corpo sublime. Contorno as nuvens com a ponta do dedo. Crio coisas quaisquer. Moldo no frescor do nada com a doce ilusão de ser Deus. Inventar. Desvendar no primitivo, gasoso, minha semelhança. Tem valor de secreto essas inconfessáveis aparências. Signo de Ar. O cigarro aceso, em fuga espectral  todos os fantasmas natimortos da minha literatura vencida. Fumaça. A gata enrola-se aos meus pés. Datilografo minha identidade imprecisa. Me fascino com a total ignorância de ser só. Uma solidão enevoada, apagando a sanidade num risco branco de giz. Não entender e ser. Eis-me. 

3 comentários:

  1. Adorei toda essa atmosfera otimista, essa solitude fértil, esse clima de completude. Ótimo, Nato.

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  2. Esculpir o pensamento, essa mescla de razão e emoção nas palavras, é como moldar a pedra bruta numa escultura. Não basta escrever, mas tentar escrever de forma perfeita, com essa ilusão de ser Deus, uma das grandes e estapafúrdias invenções humanas. Inventemos no papel a nossa própria reinvenção, e que as palavras nos concedam essa noção do primitivo a partir de nós mesmos.
    Não acredito que da forma como escreves, a literatura alguma vez saia vencida. Sairá sempre triunfante. Porque a nossa essência é nunca nos entendermos.Porque não nos conhecemos.Quando acharmos que nos conhecemos, estamos "mortos".
    E eis-me aqui para te saudar.
    xx

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  3. As palavras sempre são a matéria prima mais sublime que existe, Nato. A tua é excepcional, sem mais.


    Essa foto é tua?

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