Mordeu os lábios. A sensação era diferente. Corrente elétrica que percorreu de um ponto a
outro, passou pelo ventre, por acaso, notou no momento exato em que o cruzou.
Ele não sentiu também? Não se sabe de que molécula partiu, que neurônio. O músculo cárdico acelerado, coração... Como se mordesse um ser celeste, uma
estrela que explodiu a bilhões de anos. Força que reconhece sua, tão íntima e
misteriosa, oculta na escuridão pulsante do corpo. Por um lado ela se aliviava, por
outro não compreendia. Mas estava exausta de tentar compreender certas coisas,
deixava no plano mítico ou místico. Nessas horas se permitia a ignorância. E a
sensação... aquela estranha sensação de ter sido. Ter sido instrumento,
matéria. Sentou-se sobre a cama, fechou o penhoar lilás com firmeza. Acendeu um incenso, não fumava havia algum
tempo, a última vez fora na noite em que soube pelo noticiário da morte de
Elizabeth Taylor. Chorara? Apagavam-se os olhos violeta do mundo. Mas e a sua
força? Tão viva e recolhida, insipida. Orgasmo. Tinham medo as freirinhas da palavra.
As meninas reunidas em rodinhas fumando escondidas e a palavrinha na ponta da
língua. Incógnita e ponto G. Sentia-se alheia aquele mundo, aquela sensação
muitas vezes deveras enfeitada por bocas ainda virgens. A palavra como o sumo de uma saborosa fruta madura. E como queria saborear a
estúpida cor do prazer, branca e longínqua, algodoada e pura. O tom de quando a mulher
conseguia acariciar a própria alma.
_Foi bom? _ele
perguntou arfante, o cabelo caindo sobre os olhos, a cabeça sendo engolida pelo
travesseiro.
Fez um meneio de
cabeça concordando, e enfim entendeu plenamente a expressão: “dar com uma mão e tirar
com a outra”. Ficou olhando o ventilador de teto girar e girar e ao fundo conseguiu ouvir o rádio do vizinho do andar de baixo ligado baixinho. Eternamente,
Yolanda. Submergia lentamente.

Nossa, que texto incrível. Adorei!
ResponderExcluirPerfeita a maneira como você escreve, gostei!
http://destinoincertoo.blogspot.com.br/
Texto muito bom! Gostei do final, que não parece terminar; ecoa na alma (submerge-me). Ou antes, se funde em um novo elemento, após me estilhaçar. Não o caos, pois aqui há uma sintonia. Porém, este silêncio, meio em slowmotion. E aqui, como em outros textos seus, confunde-se prosa e poesia. Parabén, Natinho!
ResponderExcluirhttp://aliasnaolamentonossafebre.blogspot.com.br/
Excelente!
ResponderExcluirxx