quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Aula de Ballet ou Uma literatura Menor


              Imagem in: https://www.deviantart.com/catherinas/art/ballet-288705293

Creio que sonhávamos com os instantes de silêncio, quando recorríamos ao mistério inexplicável das sensações, aqueles instantes em que juntas poderíamos ser. Ser sem pesar. Nós mesmas.
Tudo indica que minha primeira paixão tenha começado no dia em que, fugindo do aguaceiro, entrei correndo no prédio do curso. Gotas d’água vasculhavam meu corpo, encontrando partes quentes, o próprio corpo a se desenvolver. Fios de cabelo insistentes grudavam em minha testa, colavam-se junto aos meus lábios. De repente o chão duro e frio. A queda. Sempre chovia à tarde.
Quanto a mim, que sempre me julguei demasiado precavida, não previ que o céu ficaria lívido, que o guarda-chuva não estaria na bolsa, tão pouco o quanto era incalculável o instante da paixão. O que me desarmou naquele dia se não propriamente o destino? Eu vivia aquela fase em que nada era surpreendente, julgando-me conhecedora de todas as facetas do dado. Quanta pretensão! Convencida e poderosa, mas caída ao chão. Ainda ali, o sabor salgado do sangue na boca. Poderias ter uma rosa no lugar da cabeça, dado o perfume, mas era teu rosto que me sorria. Tu me estendeste a mão: “Cuidado!”.
Tu eras dali em diante existente em meu mundinho. Coração pulsante e todas as construções romanticamente exageradas da língua.  
 As gotas ziguezagueavam sobre a superfície embaçada do vidro. Uma gotinha escorria até encontrar outra gotinha, que, por sua vez, formava pequenas poças em cantos imperscrutáveis da janela. A cópula. Demi plié. O meu coque sempre desalinhado. Pés encostados sobre a barra. Equilíbrio. Fitava-te, ah, teu jeito me fascinava e envergonhava. Meu constrangimento era uma surpresa para mim. Como dai em diante ansiei por ser correspondida... O que me atingiu como um raio, enquanto dançávamos e nossos olhares se esbarravam? Um piscar. Era isso?
E um, dois, três, quatro...
Embora eu detestasse o curso de ballet, tinha plena convicção que ele me propiciava os instantes mais significativos da minha vida juvenil. E não era? Por isso mesmo o tolerava. Meus pés feios, enrolados em gazes e esparadrapos não eram, necessariamente, um motivo para me fazer desistir de ti, mesmo quando exaustos, sangravam nas sapatilhas.
— Lívia! — A professora me censurava quando, distraída, eu errava o passo e a postura. Ah, como a detestava!   
Logo a dor ia embora, a vergonha igualmente, como qualquer escuridão a se extinguir na presença da luz. Engraçado, eu compreendo tal comparação como um desses versos antiquados duma música antiga. Devo admitir que ali, apaixonada, me tornei uma moça deveras ridícula. E adorável, visto os anos que passaram e o olhar zeloso que desenvolvi com a experiência, condescendente e materno, ao meu eu do passado. Fruto de terapia. Admito. Agora perdoo minhas tolices e equívocos, minha inexperiência.    
— Atenção, Amanda! — A ti também as ralhas alcançavam. Até à bailarina indomável de caixinha de joias, quem diria? Ah, se eu pudesse te recolher com minhas mãos em concha, te pôr em uma caixinha delicada. Eu a abriria a meu bel-prazer e te assistiria dançar, sempre e completamente minha.
Para além do delírio, gostoso era sentir teu toque nas barras ao encostarmos levemente o corpo uma ao da outra. As malhas roçando levemente. Desvendando o corpo espelhado. Na primeira posição de perna, Grand plié.    
     Não trocávamos palavras durante as aulas. Bilhetinhos apaixonados. Afagos. Sorrisos. Jamais seriamos pegas ou vítimas de suspeitas das outras meninas. Cumplices, quando, no mutismo do esforço das barras, desejávamos uma à outra nas aulas de ballet. Suponho, no entanto, que Degas jamais nos teria como inspiração. Mas tudo era tão bonito, veja só, um mundo cor-de-rosa à parte do lamaçal do lado de fora, do mundo inteiro, que me parecia um eterno toró no calendário de tardes modorrentas, banais.
Penso, até quando poderíamos suportar aqueles limites? Chegaríamos um dia a nos tornar amantes? Cigarro na boca depois do amor, banho ou lencinhos umedecidos, meu bem? Rosados orifícios. Ponta dos dedos. Língua e... ops, espasmos. O dom de Eva, aquele segredo desvendado anos depois, na faculdade. Dificílimo par alguns, feminino, misterioso e proibitivo num mundo de homens.
Vieste correndo, lembro-me bem daquele dia, me empurravas para o banheiro. “Anda, te apressa, te apressa...”. Cheguei a pensar em morrer. Como? Jesus Cristo! Aqui, assim? Foi então que me disseste: “Vou-me embora da cidade, fica com isto, não te esqueces de mim!”. Ainda imaturos, nossos seios se encontraram; e tua boca, como quem beija pela primeira vez, encostou-se à minha. Fechada e demoradamente. Tal como um carimbo por sobre o papel, no entanto quente, e proibido. Eis o meu presente para a vida. Sem assimilar, não pude direcionar meu raciocínio, eu deveria sentir felicidade ou tristeza?
Meu primeiro beijo. Saíste sem dizer mais nada.
Voltamos para a sala de aula. Alguma coisa havia se rompido. Tu saberias dizer? Invisível. Já não nos olhávamos e nossos corpos não mais se encontravam. Era um adeus. Escorriam os minutos. Sabia também que aquela seria minha última aula. Dancei como se estivesse estreando. O beijo marcado em minha boca. A professora teceu pela primeira e última vez um elogio ao meu esforço. Elogio que ignorei prontamente, pois preferia a indisciplina.  Nosso tempo acabou sinalizado pelo som agudo do relógio.  Fomos dispensadas.
Um raio branco cortou o céu cinzento e depois ocorreu de o trovão o acompanhar, lento e grave. Quando te vi ao longe, traspondo a massa de garotas agitadas em malhas coloridas, descendo as escadas em fuga, atravessando a portaria desvairada e infantil, a chuva tornou a cair. 

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