Retrato sobre a mesa. A cabeceira
escondia os segredos de uma noite mal dormida. Apagou a luz branca do abajur. Ao lado,
ele. Roncava sobre sonhos macios como o travesseiro, esses sonhos, pensou, não
vinham lhe apoiar mais uma consciência tranquila. Sentiu inveja e vergonha de ter
aquele comportamento, talvez o melhor fosse admitir... admitir. Tricotar mentiras numa
estratégia de ignorar o óbvio a machucava quando ela alcançava o ponto, a linha
vermelha, o momento limítrofe em que o sereno sedia as verdades. Não podia
esconder de si mesma a âncora florida na altura da virilha, a tatuagem. Era
fevereiro, talvez. O tempo brincava de chover lá fora, o som das gotas contra a
janela faziam-na pensar em comprimidos pra dormir. Era fevereiro, ela rompia o
acordo de não se apaixonar por outro. Ultrapassava, assim, os limites de não
marcar um segundo encontro, de não permitir o coração exposto daquele modo. Era Fevereiro, e ela, de pernas cruzadas, esperava. Era fevereiro e a noite abortara estrelas natimortas num céu triste, enquanto ela atendia mais uma
ligação.
_Alô...?

Poxa, há tempos não venho aqui, rs. E não podia ter vindo em melhor momento. Bravo! Conto perfeito, riqueza de detalhes que saltam aos olhos, fica-se a quase tocar, respirar o ar ao redor, sentir-se no personagem, transportasse. Mágico, Nato. Adorei, escreve muitíssimo bem, um talento.
ResponderExcluirO cenário de uma certa desolação, quando a mentira se instala e não se conseguem rasgar as noites de silêncio e insónia.
ResponderExcluirSempre melhor admitir. Sempre.
Gostei da simbologia da âncora florida, a remeter para um compromisso com a fidelidade.
Desprendido, e muito bem escrito, Nato.
xx