quarta-feira, 23 de março de 2016

Era Fevereiro


   Retrato sobre a mesa. A cabeceira escondia os segredos de uma noite mal dormida.  Apagou a luz branca do abajur. Ao lado, ele. Roncava sobre sonhos macios como o travesseiro, esses sonhos, pensou, não vinham lhe apoiar mais uma consciência tranquila. Sentiu inveja e vergonha de ter aquele comportamento, talvez o melhor fosse admitir... admitir. Tricotar mentiras numa estratégia de ignorar o óbvio a machucava quando ela alcançava o ponto, a linha vermelha, o momento limítrofe em que o sereno sedia as verdades. Não podia esconder de si mesma a âncora florida na altura da virilha, a tatuagem. Era fevereiro, talvez. O tempo brincava de chover lá fora, o som das gotas contra a janela faziam-na pensar em comprimidos pra dormir. Era fevereiro, ela rompia o acordo de não se apaixonar por outro. Ultrapassava, assim, os limites de não marcar um segundo encontro, de não permitir o coração exposto daquele modo. Era Fevereiro, e ela, de pernas cruzadas, esperava. Era fevereiro e a noite abortara estrelas natimortas num céu triste, enquanto ela atendia mais uma ligação.
_Alô...?     

2 comentários:

  1. Poxa, há tempos não venho aqui, rs. E não podia ter vindo em melhor momento. Bravo! Conto perfeito, riqueza de detalhes que saltam aos olhos, fica-se a quase tocar, respirar o ar ao redor, sentir-se no personagem, transportasse. Mágico, Nato. Adorei, escreve muitíssimo bem, um talento.

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  2. O cenário de uma certa desolação, quando a mentira se instala e não se conseguem rasgar as noites de silêncio e insónia.
    Sempre melhor admitir. Sempre.
    Gostei da simbologia da âncora florida, a remeter para um compromisso com a fidelidade.
    Desprendido, e muito bem escrito, Nato.
    xx

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